Bento Gonçalves entrou para um seleto grupo internacional de vinícolas ao lado de regiões como Champagne e Barolo após duas décadas de certificação.
Quando se fala em vinho brasileiro de qualidade, dificilmente alguém deixa de citar o Vale dos Vinhedos, território de 72 km² na Serra Gaúcha que reúne dezenas de vinícolas abertas à visitação. O que menos gente sabe é que essa região foi pioneira em um processo que colocou o país no mapa das certificações vinícolas internacionais: a conquista da primeira Denominação de Origem de vinhos do Brasil. A pergunta que fica é como uma região relativamente jovem, se comparada às tradicionais zonas produtoras europeias, conseguiu alcançar um selo tão disputado, e o que essa conquista representa na prática para quem produz e para quem compra um rótulo nacional. Entender essa trajetória ajuda a explicar por que Bento Gonçalves carrega o título de capital brasileira do vinho.
A trajetória da Indicação de Procedência até a Denominação de Origem
A conquista não aconteceu da noite para o dia. Em 2002, o Vale dos Vinhedos se tornou a primeira região brasileira a receber a Indicação de Procedência concedida pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial, selo que atesta a origem geográfica de um produto. Esse primeiro reconhecimento já representava um avanço importante, pois sinalizava ao mercado que aqueles vinhos vinham de um território com identidade própria, e não apenas de uma região genérica do Sul do país. Foi o ponto de partida para um processo de amadurecimento que envolveu produtores, cooperativas e órgãos de certificação ao longo da década seguinte. Brasil 247
Dez anos depois, em 2012, veio a Denominação de Origem, considerada a mais alta certificação de qualidade e procedência existente no Brasil, com regras rígidas sobre quais uvas podem ser usadas, quais técnicas de elaboração são permitidas e como deve ser a composição do solo. Diferentemente da Indicação de Procedência, que atesta apenas a origem, a Denominação de Origem exige que características específicas do vinho, como aroma, estrutura e potencial de guarda, estejam diretamente ligadas ao terroir da região. Foi a primeira vez que um vinho brasileiro recebeu esse nível de certificação, o que abriu caminho para que outras regiões do país, como Pinto Bandeira, também na Serra Gaúcha, buscassem seus próprios selos nos anos seguintes. Brasil 247
O que torna o Vale dos Vinhedos comparável a regiões europeias
O reconhecimento não ficou restrito ao território nacional. Em 2007, a então Comunidade Europeia incluiu o Vale dos Vinhedos na lista de terceiros países com Indicação Geográfica de vinhos, um passo relevante para a exportação e para a credibilidade internacional dos rótulos produzidos ali. Esse tipo de reconhecimento cruzado costuma facilitar negociações comerciais e abrir portas em mercados mais exigentes, já que a Europa é referência histórica em regulação vinícola. A inclusão na lista europeia funcionou, na prática, como um selo de qualidade adicional, reconhecido por importadores e sommeliers acostumados a avaliar rótulos pelo critério de origem certificada. Brasil 247
A aproximação com o cenário europeu se intensificou em 2018, quando Bento Gonçalves passou a integrar a Città del Vino, associação italiana que reúne cerca de 480 comunidades vinícolas em diferentes países e mantém intercâmbio com regiões produtoras tradicionais da Europa, entre elas o próprio Vêneto e o Trentino. Esse tipo de vínculo institucional coloca a região gaúcha em contato direto com boas práticas de manejo, gestão de enoturismo e estratégias de valorização de marca usadas há séculos em regiões como Champagne e Barolo, ainda que a escala e a tradição sejam evidentemente distintas. É esse conjunto de certificações e parcerias que sustenta a comparação, hoje comum entre especialistas, entre o Vale dos Vinhedos e zonas vinícolas europeias consagradas. Brasil 247
Enoturismo e reconhecimento internacional: o que isso significa na prática
Para quem visita a região, a Denominação de Origem se traduz em uma experiência mais estruturada de enoturismo. O território reúne desde cooperativas centenárias, como a Aurora, até produtores boutique premiados internacionalmente, todos concentrados em uma área relativamente pequena e de fácil acesso. Entre janeiro e março, período da vindima, o visitante pode participar ativamente da colheita e da pisa da uva, uma vivência que conecta diretamente o público às raízes italianas da imigração que deu origem à vitivinicultura na Serra Gaúcha. Esse tipo de experiência tem se tornado um diferencial competitivo importante para o turismo gaúcho, especialmente em um momento em que o interesse por vinhos nacionais está em alta. Brasil 247
Para quem compra o vinho na prateleira, a certificação funciona como um critério objetivo de escolha. Um rótulo com Denominação de Origem do Vale dos Vinhedos carrega, por definição, um conjunto de garantias sobre origem das uvas, técnicas de produção e características sensoriais esperadas, o que reduz a incerteza na hora da compra e ajuda o consumidor menos experiente a identificar produtos de maior consistência de qualidade. Esse selo também tende a agregar valor comercial ao produto, já que funciona como atestado de rigor técnico reconhecido tanto no Brasil quanto no exterior.
A história do Vale dos Vinhedos mostra que reconhecimento internacional não surge do dia para a noite: foram cerca de dez anos entre a primeira certificação e a Denominação de Origem, e outra década até a consolidação de parcerias institucionais na Europa. Esse percurso ajuda a explicar por que a região segue sendo referência quando o assunto é qualidade do vinho brasileiro, e por que Bento Gonçalves consegue sustentar, com base documental e não apenas em tradição, o título de capital nacional da bebida. Para o consumidor, fica a dica prática: observar o selo de Denominação de Origem no rótulo é uma forma segura de identificar produtos certificados dessa região.
Fontes consultadas:
Brasil 247: https://www.brasil247.com/tendencias/2026/07/15/esta-cidade-conquistou-a-primeira-denominacao-de-origem-de-vinhos-do-brasil-e-entrou-para-um-seleto-clube-internacional-do-vinho/
