Saneamento básico no Brasil: o que falta para universalizar o acesso e quais tecnologias estão mudando esse cenário

Diego Rodríguez Velázquez
Diego Rodríguez Velázquez Diego Rodríguez Velázquez
7 Min de leitura
Odair José Mannrich

Para o engenheiro e fundador da Versa Engenharia Ambiental, Odair José Mannrich, o saneamento básico representa um dos maiores gargalos do desenvolvimento brasileiro: um país que se modernizou economicamente nas últimas décadas, mas que ainda deixa milhões de pessoas sem acesso a esgoto tratado, água potável e coleta regular de resíduos. Neste artigo, você vai entender por que o saneamento básico continua sendo um dos maiores desafios da infraestrutura nacional, quais são os obstáculos reais para sua universalização e de que forma novas tecnologias estão começando a mudar esse cenário.

O tamanho do problema que o Brasil ainda não resolveu

Os números do saneamento básico no Brasil são, ao mesmo tempo, conhecidos e ignorados. Segundo o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento, mais de 35 milhões de brasileiros não têm acesso à água tratada, e cerca de 100 milhões seguem sem coleta de esgoto. Isso significa que, em pleno século XXI, quase metade da população brasileira ainda despeja esgoto in natura em rios, lagos e solos, com consequências diretas sobre a saúde pública, o meio ambiente e a economia.

O impacto econômico é frequentemente subestimado. Estudos do setor indicam que cada real investido em saneamento básico gera até quatro reais de retorno em saúde pública, produtividade e redução de custos hospitalares. Posto isso, Odair José Mannrich expõe que a pergunta que permanece sem resposta satisfatória é: por que o Brasil ainda não avançou mais nessa área?

Por que a universalização avança tão devagar?

As razões para o lento avanço do saneamento básico no Brasil são estruturais. Primordialmente, há uma questão de financiamento: obras de infraestrutura hídrica e sanitária exigem investimentos de longo prazo, com retorno lento e pouco atrativo para o mercado privado sem garantias adequadas. Durante décadas, o setor dependeu quase exclusivamente de recursos públicos federais, sujeitos às oscilações orçamentárias e às prioridades políticas de cada governo.

- Advertisement -

Em seguida, há o problema da capacidade técnica municipal. Grande parte dos municípios brasileiros, especialmente os de pequeno porte, não possui equipes qualificadas para planejar, licenciar e executar obras de saneamento com a complexidade que elas exigem. Conforme aponta a literatura especializada, essa lacuna técnica é um dos principais fatores de atraso na execução de projetos já financiados.

O novo marco legal do saneamento, aprovado em 2020, trouxe mudanças importantes ao abrir o setor para a participação privada e estabelecer metas de universalização até 2033. Contudo, especialistas alertam que cumprir esse prazo exigirá um volume de investimentos e uma capacidade de execução que o Brasil ainda não demonstrou de forma consistente.

Tecnologias que estão mudando a lógica do setor

Nesse contexto de desafios, a tecnologia começa a oferecer caminhos antes inviáveis para municípios menores e regiões remotas. Sistemas modulares de tratamento de esgoto, estações compactas de abastecimento de água e soluções de monitoramento digital de redes hídricas estão tornando possível levar infraestrutura sanitária a localidades que historicamente ficavam fora do alcance das grandes obras convencionais.

Odair José Mannrich
Odair José Mannrich

Segundo o engenheiro Odair José Mannrich, com experiência acumulada em projetos de engenharia ambiental e infraestrutura de saneamento, a combinação entre inovação tecnológica e capacidade técnica de execução é o que efetivamente transforma diagnósticos em obras concluídas. Nessa mesma lógica, o uso de sensores para detecção de vazamentos em redes de distribuição de água, por exemplo, já permite reduzir perdas que chegam a 40% em alguns sistemas brasileiros, um desperdício que compromete tanto o abastecimento quanto a viabilidade financeira dos operadores.

Esgotamento sanitário: o elo mais fraco da cadeia

Entre os componentes do saneamento básico, o esgotamento sanitário é, sem dúvida, o mais deficiente no Brasil. Enquanto o abastecimento de água potável avançou de forma mais expressiva nas últimas décadas, a coleta e o tratamento de esgoto seguem como o principal ponto crítico do setor. Em muitas cidades, a rede coletora existe, mas as estações de tratamento são insuficientes ou simplesmente inexistentes, fazendo com que o esgoto coletado seja devolvido ao ambiente sem qualquer tratamento adequado.

Tal como elucida o engenheiro Odair José Mannrich, esse descompasso entre coleta e tratamento é um dos problemas técnicos mais relevantes a ser enfrentado nos próximos anos, especialmente em regiões metropolitanas que cresceram sem planejamento sanitário adequado.

Água e energia: uma conexão que o Brasil precisa levar mais a sério

Um aspecto frequentemente ignorado no debate sobre saneamento é sua relação direta com o consumo energético. Sistemas de abastecimento de água e tratamento de esgoto são grandes consumidores de energia elétrica, o que os torna vulneráveis tanto às tarifas quanto às crises de fornecimento. Adicionalmente, estações de tratamento de esgoto modernas já são capazes de gerar energia a partir do biogás produzido durante o processo de digestão anaeróbia, transformando um passivo ambiental em recurso produtivo.

Conforme destaca o engenheiro Odair José Mannrich em sua área de atuação, integrar saneamento e geração de energia é uma das fronteiras mais promissoras da engenharia ambiental aplicada à infraestrutura urbana, ainda pouco explorada no Brasil, mas com potencial significativo de expansão nos próximos anos.

O que será necessário para virar esse jogo até 2033?

Cumprir as metas do marco legal do saneamento exigirá muito mais do que recursos financeiros. Será preciso qualificar gestores municipais, simplificar processos de licenciamento, fortalecer a capacidade técnica de fiscalização e criar mecanismos que garantam a continuidade dos projetos independentemente das mudanças de governo.

Na visão de especialistas como o engenheiro Odair José Mannrich, o saneamento básico não é apenas uma questão de infraestrutura. É uma condição fundamental para que o Brasil possa, de fato, avançar em saúde pública, qualidade de vida e desenvolvimento sustentável. O prazo de 2033 é ambicioso, mas tecnicamente alcançável, desde que as decisões deixem de ser adiadas e as obras deixem de ser interrompidas.

Autor: Diego Rodríguez Velázquez

Compartilhe esse Artigo
Deixe um Comentário