Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, médico radiologista e ex-secretário de Saúde, destaca que a mamografia é reconhecida mundialmente como a principal ferramenta para o diagnóstico precoce do câncer de mama. No entanto, um aspecto ainda desperta dúvidas: se o exame é praticamente o mesmo em diferentes países, por que alguns programas de rastreamento conseguem reduzir muito mais a mortalidade do que outros? A resposta não está apenas na tecnologia utilizada, mas na forma como cada sistema de saúde organiza toda a jornada de prevenção.
Sendo assim, a eficácia de um programa de rastreamento depende de uma combinação de fatores que vai muito além da realização da mamografia. Cobertura da população-alvo, qualidade dos equipamentos, capacitação dos radiologistas, rapidez na investigação de alterações e acesso oportuno ao tratamento fazem parte de uma mesma cadeia de cuidado. Quando uma dessas etapas falha, as chances de diagnosticar a doença precocemente e reduzir as mortes por câncer de mama também diminuem.
O exame é o mesmo, mas a estratégia muda completamente
A mamografia utilizada no Brasil é, em essência, a mesma empregada em países como Suécia, Holanda, Reino Unido e Canadá. No entanto, especialistas destacam que o exame representa apenas uma parte do processo. O que diferencia os programas mais bem-sucedidos é a forma como eles são planejados, monitorados e avaliados continuamente.
Em muitos países europeus, o rastreamento é organizado em nível nacional. Mulheres da faixa etária indicada recebem convites automáticos para realizar o exame; os intervalos entre as mamografias seguem protocolos padronizados e cada etapa é acompanhada por sistemas informatizados. Além disso, indicadores como cobertura populacional, tempo para emissão do laudo, taxa de reconvocação e detecção de tumores são monitorados regularmente. Essa gestão permite identificar falhas rapidamente e promover melhorias contínuas.
O que os países com melhores resultados fazem de diferente?
Estudos da International Agency for Research on Cancer (IARC), da European Society of Breast Imaging (EUSOBI) e da American Cancer Society (ACS) mostram que programas organizados conseguem reduzir a mortalidade quando atingem ampla cobertura da população-alvo e mantêm elevado padrão de qualidade em todas as etapas do processo. Não basta oferecer o exame; é necessário garantir que a maioria das mulheres elegíveis realmente participe do rastreamento e tenha acesso rápido aos serviços de saúde quando uma alteração é identificada.
Dr. Vinicius Rodrigues frisa que outro diferencial importante está no rigor técnico adotado por esses programas. Em diversos países, radiologistas participam de treinamentos específicos, os equipamentos passam por avaliações periódicas de desempenho e muitas mamografias são analisadas por dois especialistas de forma independente, prática conhecida como dupla leitura. Essa estratégia reduz erros diagnósticos e aumenta a segurança na identificação de lesões suspeitas.

Fazer mais mamografias significa necessariamente salvar mais vidas?
À primeira vista, aumentar o número de exames parece ser a solução mais lógica para reduzir a mortalidade. Entretanto, a medicina baseada em evidências demonstra que a quantidade, isoladamente, não garante melhores resultados. Um programa pode realizar milhares de mamografias, mas apresentar impacto limitado se houver demora para confirmar o diagnóstico, dificuldade de acesso à biópsia ou atraso no início do tratamento.
Conforme observa o Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, o rastreamento só cumpre sua finalidade quando funciona como uma linha de cuidado integrada. Isso significa que a paciente precisa percorrer todas as etapas com agilidade: realização do exame, interpretação do laudo, investigação complementar quando necessária e encaminhamento rápido para tratamento. Quanto menor esse intervalo, maiores tendem a ser as chances de detectar tumores em fases iniciais e ampliar as possibilidades de cura.
O que o Brasil pode aprender com as experiências internacionais?
O Brasil possui profissionais altamente qualificados, centros de referência em diagnóstico por imagem e políticas públicas voltadas ao controle do câncer de mama. Contudo, ainda enfrenta desafios relacionados às desigualdades regionais, à cobertura do rastreamento e à organização da assistência. Em algumas localidades, mulheres conseguem realizar mamografia e exames complementares em poucos dias; em outras, enfrentam longos períodos de espera que podem comprometer o diagnóstico precoce.
Conforme esclarece o Dr. Vinicius Rodrigues, as experiências internacionais mostram que investir apenas na aquisição de novos equipamentos não é suficiente. O fortalecimento dos programas depende também de sistemas de informação eficientes, auditorias permanentes, padronização dos laudos, educação da população sobre a importância do rastreamento e incorporação responsável de tecnologias, como a inteligência artificial, para apoiar a interpretação dos exames e otimizar o fluxo de atendimento.
O verdadeiro indicador de sucesso não é o número de exames realizados
Durante muitos anos, a avaliação dos programas de rastreamento concentrou-se na quantidade de mamografias realizadas. Hoje, especialistas entendem que esse indicador, sozinho, diz pouco sobre a efetividade da prevenção. O que realmente importa é quantas mulheres tiveram o câncer identificado precocemente, iniciaram o tratamento em tempo oportuno e conseguiram reduzir o risco de morte pela doença.
Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues conclui que essa mudança de perspectiva representa uma evolução importante da saúde pública. Os programas de rastreamento mais eficientes são aqueles que conseguem transformar tecnologia, planejamento e gestão em benefícios concretos para a população. Mais do que ampliar o acesso aos exames, o desafio consiste em construir sistemas capazes de oferecer diagnóstico de qualidade, acompanhamento contínuo e tratamento oportuno, permitindo que cada vez mais mulheres tenham a oportunidade de vencer o câncer de mama.
